(©Fraternità CL)

Tendencialmente unidos como génese de juízo e como ação

Apontamentos do diálogo com Davide Prosperi durante a Diaconia da Região Lombardia. Milão, 31 de março de 2026

Francesco Cassese. À luz do que surgiu na última Diaconia da Região Lombardia de 10 de março, gostaria agora de propor que déssemos juntos mais um passo, que não só sintetize as descobertas e as observações que já fizemos, como relance o nosso caminho comum, para além das fronteiras da Lombardia. Com este objetivo, gostaria de fazer algumas perguntas ao Davide. Começo pelo último período, desde que saiu o manifesto da Companhia das Obras, relativo ao referendo sobre a divisão das carreiras dos magistrados, que o Movimento tornou seu e propôs a todos. Daí nasceu, como vimos, um “movimento” de pessoas, com muitos momentos de encontro e diálogo não só na Lombardia, mas também em muitas partes da Itália. Surgiram, por parte de alguns, também pedidos para poder perceber melhor o que está em jogo nesta escolha do Movimento. E, paradoxalmente, digo eu, o facto de ter prevalecido uma posição diferente da indicada ajuda-nos a aprofundar com mais liberdade o motivo da proposta.
Pergunto-te, então, Davide: o que é que estava em jogo para nós, para “cada um” de nós e para “nós” em conjunto, na tentativa realizada de formular um juízo comum, público, sobre uma questão de interesse civil e político? Nos termos da experiência cristã que partilhamos, qual era e qual é o alcance desta tentativa?

Davide Prosperi. A pergunta é muito oportuna e eu gostaria, antes de tudo, que nós – que estamos aqui porque fomos chamados a uma responsabilidade no Movimento – nos ajudássemos a perceber a dimensão da tentativa que realizamos, porque ela contém um passo de consciência da originalidade do Movimento, da «natureza específica do carisma de Comunhão e Libertação», que don Giussani sintetiza nos três pontos inseridos no prólogo dos Estatutos da Fraternidade, que vos convido a retomar. É uma posição nada óbvia, no panorama das experiências eclesiais. Precisamente por isso, gostaria primeiro de observar que o que aconteceu com o caso do referendo não representa um episódio circunstancial ou arbitrário – isto é, uma situação que poderia ter sido enfrentada indiferentemente de um modo ou de outro, sem implicar algo que pertence à nossa experiência –, mas constitui para nós um tijolo da contínua construção do sujeito CL…

O que estamos a fazer é aquilo que os dois últimos pontífices nos recomendaram repetidamente (de modo significativo, o Papa Leão XIV fez a mesma recomendação também aos Focolares, que recebeu recentemente): este tempo é-nos dado também para redescobrir os elementos essenciais do nosso carisma, distinguindo entre o que é necessário reter e é, de certa maneira, atemporal, e o que, pelo contrário, está ligado a uma determinada circunstância histórica e não diz respeito aos fundamentos da nossa identidade na Igreja. E gostaria também que não nos escapasse o facto de que esta tentativa se insere no percurso iniciado com a intervenção na assembleia da Associação Italiana dos Centros Culturais de 2024. Portanto, a nossa insistência não é acidental – ligada à sensibilidade de uma pessoa –, mas nasce de uma preocupação educativa, para uma integralidade da nossa experiência.

Nas páginas do livro da Equipe do CLU, L’io rinasce in un incontro (1986-1987), que publicamos no site, Giussani indicava duas das posições possíveis no contexto das experiências eclesiais. A primeira, que se refere aos organizadores do congresso de 1976 Evangelização e promoção humana e ainda hoje muito presente, é «definida por uma separação profunda entre fé e vida concreta, vida terrena. A fé diz respeito a um resultado escatológico», que pertence ao além da história; no aquém ela é «uma questão absolutamente pessoal e subjetiva». O ideal, segundo esta conceção, é um cristianismo que, «do ponto de vista cultural, social e político, não se vê, não deve ser visto […]. O cristianismo está presente na consciência dos que acreditam». No âmbito histórico, «deve viver numa diáspora anónima» (cada um se move por conta própria). A fé pode expressar-se no fenómeno do voluntariado, na assistência aos últimos, mas «a cultura, a vida social em todas as suas estruturas (incluindo a família) e a vida política não têm nada a ver com a fé», a ligação é, no máximo, indireta como apoio aos valores comuns.

Muito bem, alguns católicos têm esta conceção, diz Giussani, mas nós temos outra, que tem, como a primeira, o direito de existir. «Para nós, porém…»: bem, é preciso prestar atenção a este “porém”, que exprime o ponto que aqui nos interessa perceber; «Para nós, porém, o facto de Deus se ter feito homem abrange a totalidade do humano, do sujeito humano. O Batismo é um novo nascimento, diz o Evangelho, é o nascimento de um homem novo. […] Se o meu sujeito é renovado pelo impacto com Cristo no Batismo, porque faço parte do mistério do Seu corpo, não posso deixar de ter outra visão, ou seja, não posso deixar de ter uma visão das coisas, um sentimento da realidade e uma ação sobre a realidade que, de alguma forma, tem de ser diferente».

Cristo como presença aqui e agora muda a nossa forma de conceber e de tratar tudo, portanto também escolhas contingentes (como o referendo, precisamente): não podemos deixar de ter uma visão e uma atuação de algum modo diferentes também no campo do opinável; aliás, permito-me dizer, é precisamente no campo do opinável que se vê melhor a diversidade! Então, em vez de «diáspora anónima» – em que cada um toma posição com base nas perspetivas interpretativas e nas análises que prefere –, há «uma identidade pessoal clara que se documenta e se sustenta na identidade clara da unidade». Sim, porque – sublinha Giussani – «Cristo entra no mundo unindo os homens a quem ressuscita no Batismo. E esta unidade é o início do mundo novo». A expressão desta unidade é, por isso, o ponto mais sensível do testemunho de Cristo no mundo.

De resto, desculpem, não foi exatamente isso o que nos fascinou quando encontrámos as pessoas ou as realidades do Movimento? Não um cristianismo da separação entre a fé e a vida, mas um cristianismo integral, que tem a ver com a história, com as exigências e com os problemas da vida e da sociedade. Pelas referências que vocês costumam fazer às vossas histórias pessoais, vemos que não poucos entre nós consideravam o cristianismo como uma opção já descartada, um legado dos seus pais ou da sua infância, e depois depararam-se com pessoas que tinham uma forma nova, mais humana, mais verdadeira, de tratar o estudo, as relações, de entrar nos problemas, de estarem juntos, de ajuizar as coisas a todos os níveis, de intervir na sociedade, de maneira que ficaram atraídos e, a certa altura, se perguntaram: «Mas quem são estes aqui, o que é que há por trás deles?». E foi uma surpresa ouvir a resposta deles: «É Cristo que age entre nós, a diferença que se vê vem daí».

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